CURIA EPISCOPALIS DIOECESIS PERSONALIS SANCTI PII V
VIENNAE – AUSTRIAE
APOSTILA DE CANTO LITÚRGICO: RATIO CANTUS GREGORIANI
MANUAL TEÓRICO-PRÁTICO DE MÚSICA SACRA E SALMODIA PARA O REBANHO DA TRADIÇÃO
Para uso de Mestres de Coro, Cantores, Seminaristas e Schola Cantorum da Diocese Pessoal de São Pio V
EXORTAÇÃO PASTORAL DE DOM GHISLIERI
Dilecti filii,
A Liturgia Romana não é apenas para ser proferida, mas para ser cantada. O Canto Gregoriano não constitui um adorno secundário ou um passatempo estético para o embelezamento superficial das nossas funções; ele é a própria oração da Igreja revestida de melodia. São Santo Agostinho, com sapiente profundidade, já nos ensinava que "aquele que canta bem, reza duas vezes". No Altar, a palavra cantada penetra as camadas da alma de forma que a pura razão não consegue atingir, elevando os corações à contemplação do mistério que se opera no Sacrifício.
Nestes tempos de profunda decadência cultural, em que ritmos seculares, mundanos e teatrais invadiram sacrilegamente o Santuário sob o pretexto de "modernização", urge resgatar com máximo rigor a pureza do canto eclesiástico universal. O Papa São Pio X, em seu motu proprio Inter Sollicitudines, fixou para sempre as leis da música sagrada, apontando o Canto Gregoriano como o modelo supremo de toda a música cultual. Exigimos de todos os nossos seminaristas e levitas o estudo aplicado do tetragrama, dos modos e dos neumas. Que a vossa voz no coro seja o eco da harmonia dos Anjos, esmagando a fealdade do mundo moderno e glorificando o Rei da Eterna Majestade.
Deus vos abençoe! +
In Christo Rege et Sacerdote,
+DOM JOSEPH EUGÊNIO RATZINGER GHISLIERI, Bispo Ordinário.
CAPÍTULO I: A NATUREZA, PAPEL E MAGISTÉRIO DA MÚSICA SACRA
1. O que é o Canto Gregoriano e por que é assim?
O Canto Gregoriano (ou Cantochão) é o canto próprio, nativo e perene da Igreja Romana, codificado e unificado sob o patrocínio do Papa São Gregório Magno no século VII. Trata-se de uma melodia estritamente monódica (uma única linha melódica, sem harmonizações ou acordes), vocal (executada sem acompanhamento instrumental obrigatório) e diatônica. Ele possui um ritmo livre e fluído, moldado e subordinado inteiramente ao texto latino da Sagrada Escritura.
2. O Magistério de São Pio X (Inter Sollicitudines)
Na história do movimento litúrgico moderno, o ponto de virada deu-se em 1903 com o decreto de São Pio X. O santo Pontífice estabeleceu as três qualidades indispensáveis que tornam uma música digna do Santuário:
Santidade: Deve excluir tudo o que seja profano, teatral ou mundano, tanto na melodia quanto na execução.
Bondade de Formas / Excelência: Deve ser uma arte verdadeira e refinada, capaz de elevar o espírito.
Universalidade: Embora cada nação possa ter seus cantos piedosos, as melodias da Liturgia oficial devem guardar uma unidade que permita a qualquer católico do mundo sentir-se em casa.
São Pio X declarou textualmente: "Uma composição é tanto mais sagrada e litúrgica para a Igreja, quanto mais se aproxima, pelo andamento, pela inspiração e pelo gosto, da melodia gregoriana; e é tanto menos digna do templo, quanto mais se afasta deste supremo modelo".
3. A Polifonia Sacra e a Música Moderna Tolerada
A Polifonia Clássica: A Igreja, em segundo lugar após o gregoriano, acolhe a Polifonia Clássica (canto a várias vozes sobrepostas em perfeita harmonia, cujo ápice é Giovanni Pierluigi da Palestrina). Ela é plenamente litúrgica, desde que mantenha a gravidade e não obscureça a compreensão do texto latino.
A Música Moderna: É admitida em terceiro lugar, desde que seja de tal seriedade e gravidade que não lembre as composições teatrais ou populares. As bandas de música e instrumentos estridentes são proibidos no interior da igreja.
CAPÍTULO II: OS TIPOS DE COMPOSIÇÕES LITÚRGICAS
Dependendo do andamento e da complexidade melódica, as peças gregorianas dividem-se em três estilos execução:
Estilo Silábico: A cada sílaba do texto corresponde apenas uma nota musical (ou raramente duas). É o estilo das leituras, orações, do Pater Noster e da maior parte dos salmos no Ofício.
Estilo Neumático (ou Oligotônico): A cada sílaba do texto corresponde um pequeno grupo de duas, três ou quatro notas (um neuma). É o estilo típico do Introitus, do Sanctus e do Agnus Dei.
Estilo Melismático (ou Florido): Uma única sílaba do texto é estendida sobre longas e ricas linhas de dezenas de notas (o melisma ou jubilus). É o estilo do Gradual, do Trato e do Aleluia, onde a alma canta a alegria inefável que as palavras não conseguem exprimir inteiramente.
CAPÍTULO III: ELEMENTOS TÉCNICOS E INTERPRETAÇÃO DO TETRAGRAMA
Para que o clérigo possa ler, interpretar e cantar a música da Igreja, ele deve despir-se das regras da pauta moderna de cinco linhas (pentagrama) e dominar o Tetragrama Tradicional.
1. O Tetragrama e as Claves
O Canto Gregoriano é escrito sobre quatro linhas paralelas e três espaços intermédios. As notas leem-se de baixo para cima. A altura absoluta das notas não é fixa (como o Lá 440Hz da física moderna), mas relativa, dependendo da Clave colocada no início da pauta:
Clave de DÓ ($\mathbf{\mathbb{C}}$): Assemelha-se a um "C" estilizado. A linha onde o centro da clave está posicionado indica estritamente a nota DÓ. Geralmente localiza-se na 3ª ou 4ª linha.
Clave de FÁ ($\mathbf{\mathbb{F}}$): Assemelha-se a um "F" estilizado ou três pontos verticais. A linha onde ela se posiciona indica estritamente a nota FÁ. Geralmente localiza-se na 3ª linha.
(4ª Linha) ------------------------ [Se Clave de Dó na 3ª, aqui é RÉ](3ª Linha) --------[ CLAVE C ]----- [Aqui é a nota DÓ](2ª Linha) ------------------------ [Aqui é a nota SÍ](1ª Linha) ------------------------ [Aqui é a nota LÁ]
2. As Notas Singulares e os Neumas
As notas tradicionais possuem formato quadrado ou rombóide devido à escrita antiga com pena de ganso. Os agrupamentos de notas chamam-se Neumas:
Punctum Quadrado (■): Uma única nota silábica.
Podatus ou Pes: Duas notas sobrepostas verticalmente. Lê-se primeiro a nota de baixo e depois a nota de cima.
Clivis: Duas notas ligadas, onde a primeira é mais alta que a segunda. Lê-se de cima para baixo.
Torculus: Grupo de três notas, onde a do meio é a mais alta (baixa-alta-baixa).
Porrectus: Três notas ligadas, onde o meio apresenta um traço diagonal descendente. Lê-se a primeira (no início do traço), a segunda (no fim da descida) e a terceira (a nota isolada acima).
Punctum Inclinatum (♦): Notas em formato de losango que aparecem em série descendente. Possuem o mesmo valor de duração que as quadradas, mas indicam um andamento rápido de descida.
3. O Tempo, Ritmo e Sinais de Expressão
No gregoriano não há compasso fixo (2/4, 4/4) nem pulsação metronômica. O ritmo é livre e baseia-se na alternância natural entre elevação (arsis) e repouso (thesis), guiado pela acentuação das palavras latinas. No entanto, existem sinais interpretativos fundamentais (da escola de Solesmes):
Ictus ( ' ): Um pequeno traço vertical colocado abaixo ou acima de uma nota. Indica o apoio rítmico (o início de um grupo de notas), não significando um aumento de volume ou acento forte, mas um toque de precisão para o coro caminhar junto.
Episema Horizontal ( — ): Uma linha colocada sobre uma nota ou grupo de notas. Indica um leve e sutil prolongamento da duração dessas notas, com caráter expressivo.
Ponto de Demora ( . ): Um ponto colocado imediatamente à direita de uma nota. Ele dobra o valor da duração da nota, indicando o fim de uma frase ou repouso litúrgico.
4. As Linhas de Divisão (As Pausas)
Os cortes verticais sobre as linhas do tetragrama indicam as pausas para respiração e pontuação do texto:
Linha Mínima: Corta apenas a linha superior. Indica uma pausa quase imperceptível para respiração rápida, sem interromper o andamento.
Linha Menor: Corta as duas linhas centrais. Indica uma pausa breve de frase.
Linha Maior: Corta as quatro linhas do tetragrama. Indica o fim de uma frase litúrgica plena, com repouso e respiração completa.
Linha Dupla: Indica o fim absoluto de uma peça ou a alternância entre o coro e os cantores solistas.
CAPÍTULO IV: A MÍSTICA DOS OITO MODOS GREGORIANOS
Diferente da música secular moderna, que se baseia em apenas dois modos (Maior e Menor), o Canto Gregoriano utiliza Oito Modos Eclesiásticos (ou Tons). Cada modo possui uma "cor espiritual" e um sentimento místico específico, baseados na nota final de repouso (Finalis) e na nota de maior recorrência ou recitação (Dominante/Repercussio):
| Modo | Nome | Nota Final | Nota Dominante | Caráter Místico / Sentimento |
| I | Protus Autêntico (Dórico) | RÉ | LÁ | Grave, majestoso, convida à solenidade e à oração firme. |
| II | Protus Plagal (Hipodórico) | RÉ | FÁ | Triste, recolhido, penitencial; próprio para tempos de e luto. |
| III | Deuterus Autêntico (Frígio) | MI | SÍ / DÓ | Místico, veemente, expressa o combate espiritual ou o êxtase. |
| IV | Deuterus Plagal (Hipofrígio) | MI | LÁ | Doce, meditativo, terno; convida à confiança filial. |
| V | Tritus Autêntico (Lídio) | FÁ | DÓ | Jubiloso, brilhante, expressa a alegria triunfal da Ressurreição. |
| VI | Tritus Plagal (Hipolídio) | FÁ | LÁ | Devoto, pacífico, repousante; muito usado nas festas marianas. |
| VII | Tetrardus Autêntico (Mixolídio) | SOL | RÉ | Angélico, grandioso, expressa a sabedoria e a realeza de Deus. |
| VIII | Tetrardus Plagal (Hipomixolídio) | SOL | DÓ | Perfeito, narrativo, equilibrado; o modo da paz e da consumação. |
CAPÍTULO V: BIBLIOGRAFIA E FONTES DE ESTUDO
Para a capacitação prática e execução irrepreensível da salmodia no coro e no Altar, determinamos o uso das seguintes fontes típicas e manuais:
"Graduale Romanum" (Edição Típica Vaticana): O livro oficial indispensável que contém todas as peças cantadas da Missa para o ano inteiro (Intróito, Gradual, Aleluia, Ofertório e Comunhão).
"Liber Usualis" (Abadia de Solesmes): Compêndio monumental que reúne o Gradual e o Antifonário, servindo de ferramenta de cabeceira para os cantores do coro.
"Kyriale Seu Ordinarium Missae": Contém os cantos fixos da Missa (as várias coleções do Kyrie, Gloria, Sanctus e Agnus Dei) e as Missas de Réquiem.
"Nova Escola de Canto Gregoriano" – Dom Dominicus Johner, OSB: O melhor e mais pedagógico manual de introdução prática, rítmica e interpretativa para a formação de coros litúrgicos tradicionais.